Pé e Tornozelo

Fascite plantar: causas, tratamento e quanto tempo leva

Cerca de 10% das pessoas terão dor no calcanhar por fascite plantar em algum momento da vida. A queixa concentra-se entre 40 e 60 anos, aparece com mais frequência em quem tem sobrepeso e em quem trabalha muitas horas em pé, e é uma das lesões mais comuns em corredores. Também é a dor de pé que mais chega ao consultório com um diagnóstico errado colado nela: o esporão.

O que é a fáscia plantar

A fáscia plantar é uma faixa espessa de colágeno na sola do pé, com consistência que lembra a de um ligamento ou de um tendão. Ela liga o calcâneo à região dos dedos e funciona como um cabo tensionado.

Toda vez que você apoia o peso, essa faixa é tracionada. É trabalho mecânico, repetido milhares de vezes por dia. Quando a carga sobre a fáscia passa do que aquele tecido suporta, ele reage, dói e perde qualidade.

Isso explica o sintoma que quase todo paciente descreve igual: a dor dos primeiros passos.

Os sintomas que identificam o quadro

A dor fica embaixo do calcanhar, mais concentrada na parte interna, e tem um comportamento característico.

Ela é pior nos primeiros passos da manhã, ao sair da cama. Melhora depois de alguns minutos caminhando. Volta quando você levanta depois de ficar muito tempo sentado. E costuma piorar de novo no fim do dia, se o dia teve muito tempo em pé.

Esse padrão acontece porque a fáscia acomoda em posição encurtada durante o repouso. O primeiro apoio a estica de uma vez.

Dor no calcanhar que não segue esse comportamento merece outra investigação. Volto a isso adiante.

Por que o nome “fascite” ficou pequeno

O sufixo -ite indica inflamação. Foi assim que a condição foi batizada e é assim que ela continua sendo buscada, então mantenho o termo aqui.

Só que o que se encontra no tecido não é uma inflamação aguda como a de uma infecção ou de uma entorse. A evidência aponta alterações degenerativas na fáscia, o que levou parte da literatura a adotar os termos fasciose ou fasciopatia plantar.

Isso não é preciosismo de nomenclatura. Muda a expectativa de prazo. Inflamação aguda responde rápido. Tecido degenerado precisa ser recuperado, e recuperação de tecido leva semanas a meses. É a razão pela qual nenhuma medicação e nenhuma técnica resolve fascite plantar de uma hora para outra.

Esse é o erro mais comum do paciente com fascite: procurar o tratamento que elimina a dor rápido. Ele não existe. O que existe é um tratamento que funciona e demora, e é justamente a demora que faz muita gente abandonar antes de melhorar.

O esporão não é o problema

O esporão de calcâneo é uma espícula de osso que se forma exatamente onde a fáscia traciona o periósteo. Ele é consequência dessa tração, não a origem da dor.

Os números ajudam a entender. Cerca de metade dos pacientes com fascite plantar tem esporão, e o esporão não é a causa do quadro. Em uma série de mil radiografias, apenas 5,2% das pessoas com esporão apresentavam sintomas de fascite plantar.

Ou seja: muita gente tem esporão e nunca sentiu dor no calcanhar. O osso aparece no exame, chama atenção, e desvia o tratamento para o lugar errado. Retirar o esporão não trata fascite plantar.

A exceção é quando existe outro problema que produziu aquele osso. Aí a investigação muda de rumo, e é disso que trata o próximo tópico.

Fascite plantar quase sempre tem uma causa atrás dela

Este é o ponto que mais muda o resultado do tratamento e o que mais se pula na avaliação.

Na maior parte dos casos, a fascite não é um evento isolado da fáscia. Ela é a consequência de algo que está sobrecarregando aquele tecido. Enquanto essa causa continuar operando, o tratamento local vai aliviar e a dor vai voltar.

O que procuro na avaliação:

  • Encurtamento da musculatura da panturrilha. É o achado mais frequente e o mais bem documentado. Panturrilha curta puxa o calcâneo, aumenta a tensão que chega à fáscia e mantém a sobrecarga mesmo em quem anda pouco.
  • Padrão de marcha com apoio na ponta do pé, com tendência a posição de equino. Distribui a carga de forma que castiga a fáscia.
  • Insuficiência do tendão tibial posterior. Quando o tendão que sustenta o arco falha, a fáscia passa a trabalhar mais do que deveria para segurar o pé.

Existe fascite plantar primária, sem causa a montante. É o caso comum em corredores, onde o volume de treino explica a sobrecarga sozinho. Mas assumir que todo caso é primário é o caminho mais curto para tratar seis meses sem sair do lugar.

A ressalva honesta: o encurtamento de gastrocnêmio tem sustentação sólida na literatura. A contribuição do tibial posterior e do padrão de marcha é menos estudada como causa direta de fascite. É a minha leitura clínica do que encontro no exame, e é o que orienta a minha conduta.

Dor no calcanhar que não é fascite plantar

Nem toda dor no calcanhar vem da fáscia, e alguns diagnósticos alternativos têm urgência que a fascite não tem.

  • Fratura por estresse do calcâneo. Dor que não melhora ao caminhar, piora progressiva com a carga, dor à compressão lateral do osso. Exige diagnóstico e afastamento da carga.
  • Espondiloartrite soronegativa. A fascite plantar tem associação com espondiloartropatias soronegativas, ainda que na maioria dos casos não haja fator sistêmico envolvido. Dor em vários pontos de inserção tendínea, rigidez matinal prolongada, história familiar ou quadro articular associado deslocam a investigação para o reumatologista. Essa é uma questão reumatológica, e o reumatologista é quem conduz. A ortopedia entra se houver indicação estrutural específica.
  • Atrofia do coxim gorduroso do calcâneo, mais comum com o avançar da idade. A dor é mais central, mais difusa e não tem o padrão dos primeiros passos.
  • Compressão do nervo de Baxter. Dor com componente de queimação ou irradiação, que não se comporta como fascite.
  • Doença de Sever, em criança e adolescente. Fascite plantar é incomum na infância. A apofisite calcânea é a principal causa de dor no calcanhar entre 8 e 15 anos. O mecanismo é outro: tração do tendão de Aquiles sobre a placa de crescimento, uma estrutura que nem existe no esqueleto maduro. A dor fica atrás, não embaixo, e o exame é diferente. Dor no calcanhar de criança é assunto de ortopedia pediátrica.

Como se trata

O tratamento tem dois eixos que correm ao mesmo tempo. Um controla o sintoma. O outro recupera o tecido e corrige a causa. Só o primeiro é o motivo pelo qual a dor volta.

Alongamento e fisioterapia

É a base, e tem a melhor evidência disponível. Em ensaio randomizado com pacientes que tinham fascite crônica havia mais de dez meses, o protocolo de alongamento específico da fáscia plantar superou o alongamento do tendão de Aquiles em oito semanas, com o benefício mantido em dois anos de seguimento.

A diretriz atual acrescenta terapia manual, alongamento da panturrilha, fortalecimento e reeducação neuromuscular.

Alongamento específico não é alongar o pé de qualquer jeito. A técnica importa, e é por isso que a fisioterapia orientada funciona melhor que a tentativa isolada em casa.

Palmilha, calcanheira e calçado

A palmilha eleva um pouco o calcanhar. Menos altura entre o calcâneo e o antepé significa menos tensão na fáscia, e menos tensão significa menos dor ao andar.

Ela alivia. Não resolve. A diretriz coloca a órtese exatamente nesse lugar: modelos pré-fabricados, sob medida ou moldáveis redistribuem carga e oferecem alívio no médio prazo, entre 7 e 12 semanas, e funcionam melhor considerados ao lado de outros recursos.

Vale a mesma lógica para calçado de solado firme e para calcanheira. São recursos de alívio enquanto o tratamento de fato acontece.

Parte dos pacientes sente pouco ou nenhum alívio com palmilha. Isso não significa que o diagnóstico esteja errado nem que o tratamento vá falhar.

Medicação

Existe medicação para controlar o sintoma durante o processo, e a prescrição é individual, feita na consulta. Ela não substitui o alongamento nem corrige a causa. Serve para você conseguir tolerar a fase inicial e manter a reabilitação em pé.

Infiltração local de corticoide

Eu não faço infiltração local de corticoide na fáscia plantar.

O motivo é a relação entre o que se ganha e o que se arrisca. O ganho é real, porém curto: os ensaios controlados mostram redução significativa da dor, mas o efeito dura de 4 a 12 semanas. O risco inclui ruptura da fáscia plantar, infecção, lesão de nervo periférico, alteração de pigmentação da pele e atrofia do coxim gorduroso.

Ruptura da fáscia e atrofia do coxim são complicações que produzem um problema mais difícil de tratar do que a fascite que se pretendia resolver. Preferimos atravessar algumas semanas de dor com o tratamento correndo do que trocar uma dor tratável por uma sequela.

Ondas de choque

Opção para quem já fez o tratamento conservador de forma adequada, por tempo suficiente, e não melhorou. Não é porta de entrada.

A evidência é favorável mas irregular. A meta-análise de ondas de choque de alta energia recomenda o método após falha do tratamento conservador tradicional e antes da intervenção cirúrgica. Por outro lado, revisões apontam que limitações metodológicas dos estudos tornam parte dessa evidência questionável.

Cirurgia

Exceção. Reservada a casos que não responderam a um tratamento conservador bem conduzido e prolongado, e depois de a causa a montante ter sido identificada e tratada.

Quanto tempo leva

Semanas a meses, e não há como encurtar isso de forma honesta.

A ideia de que fascite plantar passa sozinha em torno de um ano vem de uma leitura otimista dos dados antigos. O seguimento longo não sustenta esse otimismo. Cerca de metade dos pacientes encaminhados a serviço especializado ainda relatava dor dez anos depois, e 40% dos pacientes de um ensaio randomizado seguiam sintomáticos dois anos após o tratamento.

Não é motivo para desânimo. É motivo para começar o tratamento certo cedo, em vez de esperar passar.

Quando procurar avaliação

Dor no calcanhar que dura mais de três a quatro semanas merece avaliação, principalmente se você já tentou alongar por conta e não mudou nada.

Procure antes disso se a dor não melhora ao caminhar, se piora de forma progressiva, se apareceu depois de aumento súbito de treino, se há dor em outras inserções de tendão pelo corpo, ou se a dor é de criança ou adolescente.

O objetivo da consulta não é confirmar que é fascite plantar. É descobrir o que está sobrecarregando a sua fáscia.


Perguntas frequentes

O que é fascite plantar?

É a condição que acomete a fáscia plantar, uma faixa de colágeno na sola do pé que liga o calcâneo à região dos dedos. Ela é tracionada a cada passo. Quando a carga supera o que o tecido suporta, surge dor no calcanhar, tipicamente nos primeiros passos da manhã. Apesar do nome, a alteração encontrada no tecido é mais degenerativa do que inflamatória.

O que causa fascite plantar?

Sobrecarga da fáscia. Na maioria dos casos essa sobrecarga vem de outro fator: encurtamento da musculatura da panturrilha, padrão de marcha com apoio na ponta do pé, insuficiência do tendão tibial posterior. Em corredores, o volume de treino explica a sobrecarga sozinho. Sobrepeso e ocupações com muitas horas em pé aumentam o risco. O esporão de calcâneo não é a causa.

Como tratar fascite plantar?

Alongamento específico da fáscia plantar e da panturrilha é a base, com fisioterapia orientada, fortalecimento e correção do que está sobrecarregando o tecido. Medicação para o sintoma, quando indicada em consulta, apoia a fase inicial. Ondas de choque entram nos casos que não responderam ao conservador. Cirurgia é exceção.

O que é bom para aliviar a dor da fascite plantar?

Elevação discreta do calcanhar, seja com palmilha, calcanheira ou calçado apropriado, reduz a tensão sobre a fáscia e diminui o desconforto ao andar. Calçado de solado firme ajuda. Alongar antes de dar os primeiros passos da manhã, ainda sentado na cama, costuma reduzir a dor inicial. Tudo isso alivia sintoma. Nada disso substitui o tratamento.

Dá para continuar caminhando ou correndo com fascite plantar?

Depende do que a avaliação encontrar e de como a dor se comporta na carga. Manter o mesmo volume de treino que produziu a sobrecarga tende a perpetuar o quadro. Parar tudo também não é o objetivo, já que a recuperação do tecido depende de carga controlada. O ajuste é individual e faz parte da conduta.

Que tipo de palmilha ajuda na fascite plantar?

A que promove elevação do calcâneo, porque é isso que reduz a tensão na fáscia. Calçados com solado firme cumprem função parecida. Modelos pré-fabricados e sob medida mostram resultado semelhante nos estudos, com alívio no médio prazo. Parte dos pacientes sente pouco alívio com palmilha, e isso é esperado. A palmilha é recurso de alívio, não tratamento da causa.


Dr. Bruno Massa
Médico ortopedista. CRM-SP 122617 · RQE 149460
Ortopedia pediátrica, pé e tornozelo do adulto e medicina esportiva. São Paulo, SP.

Referências

  1. Koc TA Jr, Bise CG, Neville C, Carreira D, Martin RL, McDonough CM. Heel pain, plantar fasciitis: revision 2023. J Orthop Sports Phys Ther. 2023;53(12):CPG1-CPG39. doi:10.2519/jospt.2023.0303
  2. Babatunde OO, Legha A, Littlewood C, et al. Comparative effectiveness of treatment options for plantar heel pain: a systematic review with network meta-analysis. Br J Sports Med. 2019;53(3):182-194. doi:10.1136/bjsports-2017-098998
  3. Thomas MJ, Whittle R, Menz HB, et al. Plantar heel pain in middle-aged and older adults: population prevalence, associations with health status and lifestyle factors, and frequency of healthcare use. BMC Musculoskelet Disord. 2019;20:337. doi:10.1186/s12891-019-2718-6
  4. DiGiovanni BF, Nawoczenski DA, Malay DP, et al. Plantar fascia-specific stretching exercise improves outcomes in patients with chronic plantar fasciitis: a prospective clinical trial with two-year follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2006;88(8):1775-1781. PMID: 16882901
  5. David JA, Sankarapandian V, Christopher PR, Chatterjee A, Macaden AS. Injected corticosteroids for treating plantar heel pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2017. (DOI pendente de confirmação)
  6. Smith SE, Tallia AF. Sever’s disease (calcaneal apophysitis). (referência pendente de confirmação)
Fabiano Ferreira

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