Todo tecido reage quando recebe pressão repetida. A pele forma calo. O osso fica mais robusto, e quando não tem tempo de se adaptar, quebra por estresse. O nervo também reage. No antepé, entre as cabeças dos metatarsos, essa pressão continuada gera uma fibrose ao redor do nervo digital plantar. Esse tecido fibroso é o que se chama de neuroma de Morton.
Não. O nome confunde e assusta quem pesquisa, porque neuroma sugere crescimento de tecido nervoso. O que existe ali é fibrose perineural e degeneração do nervo, um processo mecânico e degenerativo, não neoplásico. Nenhuma série cirúrgica descreve transformação maligna. O paciente que chega com essa dúvida pode sair da consulta com ela resolvida em dois minutos.
O terceiro espaço, entre o terceiro e o quarto dedos, é o mais acometido, seguido do segundo. Aparece com mais frequência em mulheres, e é bilateral em cerca de um quinto dos casos.
O calçado estreito comprime as cabeças dos metatarsos umas contra as outras, e o nervo fica no meio. O salto transfere carga para o antepé, aumentando a força que passa exatamente por onde a fibrose está. Por isso a dor melhora quando o paciente tira o sapato no meio do dia e volta quando ele calça de novo.
Isso não significa que salto causa neuroma de Morton. A causa exata do quadro segue desconhecida, e a literatura recente aponta outros participantes na dor, como a bursa entre os metatarsos e a instabilidade da articulação metatarsofalângica, sobretudo do segundo raio. O calçado piora um problema que já está instalado. É um fator de carga, não a origem.
Esta é a parte que muda a conduta e que quase nunca é dita.
É muito frequente ver sinais de neuroma na ressonância de quem investiga dor no antepé. O problema é que esses sinais também aparecem em pés que não doem: a prevalência de neuroma assintomático em exames de imagem foi relatada entre 33% e 54%. Além disso, não há correlação entre o tamanho da lesão na imagem e a intensidade da dor do paciente. Em série comparando avaliação clínica, ultrassom e ressonância, o exame clínico foi a modalidade mais sensível e mais específica.
Traduzindo para a prática: encontrar neuroma na ressonância não prova que a dor vem dele. Existe dor no antepé por sobrecarga metatarsal, por instabilidade da placa plantar, por fratura por estresse, por artrose da metatarsofalângica. Quando o exame físico não confirma que o neuroma é o gerador da dor, tratar o neuroma não resolve o problema do paciente.
Por isso, na minha consulta, a imagem entra depois do exame, nunca antes dele.
Examino primeiro o alinhamento da perna e do pé, porque ele determina para onde a carga vai. Procuro calo na região anterior, que é a marca visível de onde o pé está apoiando demais. Testo o encurtamento da musculatura da panturrilha, já que a limitação da dorsiflexão do tornozelo empurra carga para o antepé a cada passo.
Só então aplico os testes específicos. A compressão direta do interdígito precisa reproduzir a dor e irradiá-la para o território do nervo, não apenas doer no ponto tocado. No squeeze test, o antepé é comprimido lateralmente entre o polegar e o indicador, aproximando as cabeças dos metatarsos e apertando o nervo entre elas. O teste de Mulder soma a essa compressão a pressão do espaço interdigital, procurando o clique palpável que aparece quando a fibrose escorrega entre os metatarsos. O squeeze test é descrito como o método clínico de triagem mais sensível para o quadro, com acurácia relatada em torno de 96%.
Quando esses testes são positivos, a imagem que eventualmente aparece na ressonância ou no ultrassom passa a ter peso. Quando não são, a imagem é achado, e a investigação continua em outra direção.
O tratamento começa reduzindo a carga que passa pelo antepé. Alongamento do gastrocnêmio, porque a panturrilha encurtada é uma das causas mais comuns e mais ignoradas de sobrecarga anterior do pé. Ajuste da atividade enquanto o quadro está agudo.
E calçado adequado, que não é questão de marca e sim de características. O que oriento:
Sapato largo e mole não serve. Ele precisa ser largo onde o nervo está e firme onde o pé precisa de apoio.
Sobre palmilha: as revisões sistemáticas não encontraram evidência que sustente o uso de órteses plantares como tratamento do neuroma de Morton, e não há nenhuma evidência de que palmilha previna o quadro. Alguns pacientes relatam alívio pontual, e isso é legítimo como conforto. Não é tratamento da causa, e não substitui a correção do que está sobrecarregando o antepé.
Uso a infiltração com anestésico, sem corticoide, e principalmente como teste terapêutico. Se o bloqueio daquele espaço apaga a dor, o nervo é de fato o gerador do sintoma. Em um quadro onde a imagem engana com frequência, essa é uma informação diagnóstica de alto valor.
A escolha de não associar corticoide tem motivo. O corticoide pode trazer complicações que o anestésico isolado não traz: atrofia da pele, alteração de pigmentação e atrofia do coxim gorduroso plantar, que é a almofada natural do antepé e não se recupera. Nos ensaios comparativos, os efeitos adversos apareceram no grupo que recebeu corticoide com anestésico, e nenhum foi observado no grupo que recebeu apenas anestésico.
O ganho também não justifica esse risco na maior parte dos casos. A revisão Cochrane de 2024 concluiu que corticoide com anestésico pode não produzir diferença relevante de dor ou função em comparação com anestésico isolado, com evidência de baixa certeza. Em seguimento de médio prazo, o efeito de uma infiltração com corticoide permanecia em pouco mais de um terço dos pacientes perto de cinco anos.
A cirurgia entra quando as medidas conservadoras foram aplicadas e não resolveram, com o diagnóstico confirmado no exame físico. Não é uma resposta a uma imagem, e não é uma questão de calendário. Não existe um número de semanas a cumprir antes de operar. O que define a mudança de conduta é a limitação que o sintoma continua impondo à vida do paciente depois que a carga sobre o antepé já foi corrigida.
A retirada do nervo tem um custo que precisa ser conversado antes e não depois: a região entre os dedos correspondentes fica sem sensibilidade, de forma definitiva. Em seguimento de mais de dez anos, a satisfação com a neurectomia foi de 61%, com a maioria dos pacientes relatando dormência plantar na região operada. Taxas de falha entre 14% e 21% são descritas, e boa parte das recorrências se explica por diagnóstico errado, espaço errado ou ressecção incompleta. A comparação entre a incisão pelo dorso e pela planta do pé não mostrou diferença relevante em satisfação ou em complicações.
Essa é a razão de eu não apressar a indicação. A troca é dor por dormência permanente, e ela só vale a pena quando temos certeza de que a dor vem dali.
Não. O neuroma de Morton não tem janela terapêutica. Ele não piora estruturalmente por esperar algumas semanas, não evolui para outra doença e não perde a chance de tratamento adequado. Existem quadros no pé onde o tempo é decisivo, como uma fratura desviada ou uma infecção. Este não é um deles. A pressa aqui costuma servir mais ao procedimento do que ao paciente.
É uma fibrose ao redor do nervo digital plantar, no espaço entre as cabeças dos metatarsos, causada por pressão repetida sobre o nervo. Apesar do nome, não é um tumor.
Dor em queimação ou choque no antepé com irradiação para os dedos, sensação de pedra dentro do sapato, dormência ou formigamento entre dois dedos vizinhos. Piora com caminhada e calçado fechado, alivia ao descalçar.
Começa pela redução da carga no antepé: alongamento da panturrilha, calçado largo na região dos metatarsos e firme no solado e no calcanhar, ajuste de atividade. Quando essas medidas não resolvem e o sintoma segue limitando o dia a dia, a infiltração com anestésico serve como teste terapêutico e, em casos selecionados, a cirurgia é indicada.
Não. Boa parte dos pacientes melhora com tratamento conservador. A cirurgia é reservada para quem falhou no tratamento conservador com diagnóstico confirmado no exame físico, e envolve perda definitiva de sensibilidade na região entre os dedos operados.
Dr. Bruno Massa
Médico ortopedista. CRM-SP 122617 · RQE 149460
Atendimento presencial · São Paulo/SP
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