Ortopedia infantil em São Paulo
O osso da criança tem uma peça que o osso do adulto não tem: a cartilagem de crescimento. Ela fica nas pontas dos ossos longos, é ela que faz a criança crescer, e é ela que muda praticamente tudo na forma de avaliar, tratar e acompanhar um problema ortopédico antes dos 18 anos.
Não é uma diferença de tamanho. É uma diferença de biologia.
Por que a criança precisa de avaliação ortopédica específica?
Fraturas que envolvem a cartilagem de crescimento representam entre 15% e 30% de todas as fraturas da infância, e simplesmente não existem no esqueleto adulto, depois que a cartilagem fecha, aquele tipo de lesão deixa de acontecer.
Isso tem duas consequências práticas.
A primeira é que o osso em crescimento se corrige sozinho. Um desvio que no adulto exigiria cirurgia, na criança pode se realinhar com o próprio crescimento. Quanto de desvio o corpo dela corrige depende da idade, de qual osso é, da distância entre a fratura e a cartilagem de crescimento e da direção do desvio. Julgar isso é decisão técnica, e errar para mais tem custo: operar uma criança que se corrigiria sozinha é uma cirurgia que não precisava existir.
A segunda é o inverso. Quando a lesão atinge a própria cartilagem de crescimento, aquele ponto do osso pode parar de crescer e o resultado aparece meses ou anos depois, como um membro mais curto que o outro ou um eixo torto. Alguns padrões de fratura têm risco maior que outros. Por isso, parte do acompanhamento de uma criança com lesão na cartilagem de crescimento continua depois de o osso estar colado, às vezes até o fim do crescimento.
O que muda de uma fase para a outra?
O bebê, a criança em idade escolar e o adolescente têm ossos que respondem de formas diferentes. A capacidade de correção espontânea diminui conforme a criança se aproxima do fim do crescimento, o adolescente com a cartilagem quase fechada já se comporta, nesse aspecto, mais perto de um adulto.
Isso significa que a mesma lesão, com a mesma aparência na radiografia, pode ter três condutas corretas diferentes dependendo da idade de quem chegou no consultório. E significa que o diagnóstico não termina no que dói: termina em onde essa criança está no crescimento dela.
Por que examinar só a parte que dói pode não resolver?
Boa parte das queixas ortopédicas da infância aparece num lugar e tem origem em outro.
O exemplo mais conhecido é o joelho. Um adolescente que chega com dor no joelho pode ter um problema no quadril: o escorregamento epifisário proximal do fêmur, em que a cabeça do fêmur desliza sobre a cartilagem de crescimento. A dor se manifesta no joelho em algo entre 15% e 50% dos casos, e isso muda o destino do diagnóstico. Numa coorte nacional britânica, as crianças que chegaram queixando-se do joelho levaram, em mediana, 161 dias até o diagnóstico. As que chegaram queixando-se do quadril levaram 20.
Esse atraso tem preço. Quanto mais tempo passa, maior o grau de escorregamento, e escorregamentos maiores deixam sequela na forma do fêmur que o crescimento restante corrige apenas em parte. É uma das situações da ortopedia infantil em que existe janela terapêutica de verdade: tratar cedo e tratar tarde não produzem o mesmo resultado.
Por isso, adolescente com dor no joelho merece exame do quadril, mesmo quando o joelho parece explicar tudo.
O segundo exemplo está no pé. Uma criança com pé cavo varo, arco muito alto e calcanhar virado para dentro, é uma criança que precisa de investigação neurológica: a causa mais frequente desse formato de pé é uma doença neurológica progressiva, não um problema do pé. A doença de Charcot-Marie-Tooth é a mais comum delas, e crianças com esse diagnóstico têm risco aumentado de escoliose, que pode chegar a 37% dos casos.
O pé, nesse cenário, é o sintoma. O nervo é a doença. E a coluna é o que vem depois.
É por isso que o exame de uma criança começa no motivo da consulta e não se encerra nele.
Dr. Bruno Massa
Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 2005, com residência em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital das Clínicas da FMUSP.
Fez especialização em ortopedia pediátrica e em cirurgia do pé e tornozelo no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (IOT-HC), onde atuou como médico assistente por mais de dez anos. É Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo, no Programa de Ortopedia e Traumatologia, título obtido em 2018.
A combinação define a prática: a formação em pé e tornozelo dá a leitura detalhada da região que mais concentra queixa ortopédica na infância; a formação em ortopedia pediátrica dá o contexto de crescimento em que essa queixa acontece. É o que permite tratar a criança inteira em vez da articulação isolada.
Agendamento de consulta pelo link: linktr.ee/Dr.BrunoMassa
Dr. Bruno Massa — Médico
CRM-SP 122617 · RQE 149460
Referências
- Salter-Harris Fracture. StatPearls, NCBI Bookshelf. NBK430688.
- Conservative Treatment of Pediatric Fractures — Narrative Review of Acceptable Deformity and Remodeling Potential. Med Sci. doi:10.3390/medsci14040432
- Incidence of growth disturbance after distal tibia physeal fracture in children. PMC9730681.
- Pediatric issues with cavovarus foot deformities. PMID 18457769.
- Charcot-Marie-Tooth Disease. Pediatric Orthopaedic Society of North America (POSNA), Study Guide.
- Perry DC, Metcalfe D, Costa ML, Van Staa T. A nationwide cohort study of slipped capital femoral epiphysis. Arch Dis Child. PMC5754864.
- Kocher MS, Bishop JA, Weed B, et al. Delay in diagnosis of slipped capital femoral epiphysis. PMID 15060261.



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