Pé Torto Congênito: Diagnóstico e Método de Ponseti
O pé torto congênito é uma deformidade que acomete 1 a 2 a cada 1.000 nascidos vivos. Caracteriza-se por uma deformidade em cavo, varo, aduto e equino rígido – o pé aponta para baixo e para dentro, e não cede à correção com a mão – já ao nascimento. Cerca de metade dos casos acomete os dois pés.
O diagnóstico costuma chegar antes do parto. No ultrassom morfológico, entre a 13ª e a 23ª semana, o médico consegue ver o pé numa posição que não deveria estar: planta do pé alinhada no mesmo plano da tíbia e da fíbula. A partir daí a família passa meses com uma informação pela metade e nenhuma explicação do que vem depois.
Essa página existe para preencher esse intervalo.
O ultrassom vê a posição. Não vê a rigidez.
É a limitação central do exame na gestação, e é ela que explica por que nem todo laudo se confirma. Entre 10% e 20% dos casos apontados antes do nascimento não são pé torto congênito. Uma parte é deformidade postural – o pé se acomodou numa posição apertada dentro do útero e vai se resolver com o crescimento.
A diferença entre uma coisa e outra não está na aparência. Está em o pé ceder ou não quando alguém tenta corrigi-lo com a mão. Isso só se avalia com a criança no colo, depois do nascimento.
Por isso o exame do recém-nascido decide, e o laudo da gestação orienta.
O que separa pé torto de alteração postural
Rigidez. O pé torto congênito resiste à correção manual: você tenta trazer o pé para a posição normal e ele não vai.
Alterações posturais cedem, e melhoram sozinhas com o desenvolvimento da criança. O pé torto congênito não melhora sozinho, e não há posição, massagem ou espera que corrija a deformidade. Ele precisa de tratamento, e o tratamento tem hora para começar.
Existem ainda os casos em que o pé torto vem associado a outras condições: síndromes genéticas, artrogripose, alterações neurológicas. São pés que se comportam de maneira diferente e exigem outro nível de acompanhamento. Também neles o tratamento começa do mesmo jeito.
O método de Ponseti
Até os anos 90, a correção era cirúrgica, com liberações extensas de partes moles. O acompanhamento a longo prazo desses pacientes mostrou o preço: fibrose, rigidez articular, fraqueza muscular, dor na vida adulta. O padrão mudou.
Hoje o tratamento é conservador e é o mesmo no mundo inteiro. Manipulação semanal seguida de gesso, refeita a cada troca, corrigindo os componentes da deformidade numa sequência definida. Costumam ser necessários quatro a seis gessos.
Uso gesso convencional. Ele permite moldar o pé com precisão durante a aplicação, e moldar é onde a técnica acontece, o gesso sintético não oferece isso. A consequência prática para a família é que o gesso não pode ser molhado. Só se molha no dia de retirar.
A tenotomia
Na maioria dos casos, ao final da sequência de gessos o tendão calcâneo continua curto e impede o pé de dorsifletir. A correção é uma secção percutânea desse tendão. As séries publicadas mostram necessidade em algo entre 70% e 90% dos pés.
Faço no centro cirúrgico, com sedação e anestesia local.
O que os pais veem: praticamente nada. O ponto de entrada é mínimo e fica coberto pelo gesso final, que permanece cerca de três semanas. Uma pequena mancha de sangue no gesso pode aparecer e não é sinal de problema. Na retirada, há uma marca discreta, que costuma deixar cicatriz sutil.
O tendão se regenera com o comprimento corrigido. Não é uma cirurgia de reconstrução, é o último passo da correção.
A órtese é onde o tratamento se ganha ou se perde
Corrigido o pé, ele tende a voltar. A órtese de abdução – dois sapatos ligados por uma barra – é o que impede isso enquanto a criança cresce.
Nos primeiros três meses, uso integral: sai para o banho, para trocar fralda, para cuidar da pele, e volta. Depois disso, cerca de 14 horas por dia até os 4 anos de idade. Há serviços que mantêm apenas o uso noturno até os 5 anos, e a evidência não fecha qual esquema é superior – o que ela mostra com clareza é que interromper cedo custa caro. Trabalho com carga maior e período um pouco mais curto, e ajusto o desmame caso a caso, conforme a resposta do pé e o momento em que a correção terminou.
Esta é a parte que a literatura mede com clareza incômoda. Entre um terço e dois terços das famílias interrompem o uso antes da hora, e quem interrompe tem risco de recidiva multiplicado por cinco a dezessete vezes. Numa coorte com seguimento de cinco a dez anos, a recidiva foi de 55% entre os que abandonaram a órtese e 5% entre os que mantiveram.
Nenhuma outra variável do tratamento pesa tanto. Nem a gravidade inicial, nem o número de gessos.
Falo disso em toda consulta, e não por formalidade. A órtese incomoda, atravessa noites ruins, e a criança já está com o pé bonito e é exatamente aí que ela é abandonada.
Quando a deformidade volta
Recidiva não significa que o tratamento falhou. Significa que aquele pé precisa ser reavaliado para se entender qual componente voltou.
Quando é a deformidade como um todo, se retoma a sequência de gessos, e às vezes é preciso repetir a tenotomia. Quando o que aparece é supinação dinâmica – o pé roda para dentro quando a criança levanta o pé para dar o passo, por desequilíbrio entre o tibial anterior e os fibulares – a correção é a transferência do tendão tibial anterior.
Essa transferência tem hora. Feita antes dos 2 anos e meio, a chance de nova recidiva chega perto de 50%; depois dessa idade, cai para cerca de 13%. Quando eu digo a uma família que vamos esperar, é isso que está por trás.
Chegar tarde não é chegar tarde demais
Começar nas primeiras semanas de vida é melhor: o pé responde mais rápido, com menos gessos. Essa janela é real.
O que não é verdade é que ela se feche. O limite superior de idade para o método de Ponseti não está estabelecido na literatura, e o método já foi aplicado com bons resultados em crianças que chegaram tarde e até em pés já operados. Criança de oito meses, de dois anos, criança que iniciou tratamento em outro serviço e parou, todas têm caminho.
A consulta ainda na gestação
Atendo famílias antes do parto, com o laudo do ultrassom na mão.
Essa consulta não trata nada. Ela existe porque o diagnóstico chega junto com ansiedade, e porque uma parte grande do que se lê na internet sobre pé torto é assustadora e desatualizada.
O que fazemos ali: explicar o que o exame mostra e o que ele não mostra, descrever o caminho do tratamento, dizer quando começa, e responder às perguntas que a família tem. Acolher os pais faz parte do tratamento tanto quanto o gesso. Uma família que entende o porquê de cada etapa é uma família que não abandona a órtese no sexto mês.
O objetivo do tratamento
Um pé plantígrado, indolor, que calça sapato comum e permite correr, pular e praticar esporte.
É o que a maioria das crianças tratadas alcança, e é o que o acompanhamento de longo prazo desses pacientes até a vida adulta sustenta. Alguns pés respondem melhor que outros. A gravidade inicial, a adesão à órtese e a presença de condições associadas mudam o percurso. Isso se discute caso a caso, com o pé da sua criança na frente.
Agende uma consulta: atendimento em São Paulo, incluindo orientação pré-natal para famílias com diagnóstico no ultrassom.
Dr. Bruno Massa
Médico ortopedista — CRM-SP 122617 · RQE 149460
Ortopedia pediátrica, pé e tornozelo, medicina esportiva — São Paulo
Referências
- Ponseti IV. Congenital Clubfoot: Fundamentals of Treatment. Oxford University Press.
- Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia — Revista Brasileira de Ortopedia. Conceitos atuais no tratamento do pé torto congênito.
- American Academy of Pediatrics. Clubfoot treatment with the Ponseti method.
- Zionts LE, et al. Bracing in clubfoot: do we know enough? J Child Orthop.
- American Journal of Obstetrics & Gynecology. Congenital talipes equinovarus (clubfoot): diagnóstico pré-natal e acurácia.
- Masrouha KZ, Morcuende JA. Recurrence after tibialis anterior tendon transfer in clubfoot. J Pediatr Orthop.




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